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FOB-USP pesquisa a distribuição da informação em saúde na internet, em meios digitais, na IA e o fenômeno da desinformação

Os professores Thiago e Agnes Cruvinel, coordenadores do Laboratório Informa Ação Saúde da USP. Foto: Divulgação

O objetivo central do grupo é entender o comportamento informacional das pessoas em saúde: o que elas perguntam, onde perguntam e que respostas encontram. O grupo trabalha com a infodemiologia, que trata os rastros digitais — buscas no Google, engajamento em redes sociais, e agora as respostas de modelos de IA — como fonte de dados epidemiológicos sobre a demanda por informação

Por Marianne Ramalho (Comunicação USP Bauru)

Laboratório Informa Ação Saúde é o nome do grupo de pesquisa coordenado pelo professor Thiago Cruvinel, chefe do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), e pela professora Agnes Cruvinel, da Faculdade de Medicina de Bauru (FMBRU-USP).

É um grupo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) certificado pela Universidade de São Paulo (USP). Ele começou a se formar em 2014, com o desenvolvimento dos primeiros trabalhos relacionados à infodemiologia e letramento em saúde. Atualmente conta com 15 integrantes entre pesquisadores e estudantes de doutorado, mestrado e iniciação científica.

A infodemiologia é a ciência que estuda a distribuição e os determinantes da informação em saúde na internet e em meios digitais. O objetivo é rastrear, analisar e prever como boatos, dados precisos ou a desinformação se espalham, funcionando como uma ferramenta de apoio para a saúde pública.

Thiago Cruvinel esclarece que “o objetivo central é entender o comportamento informacional das pessoas em saúde: o que elas perguntam, onde perguntam e que respostas encontram. Trabalhamos com a infodemiologia, que trata os rastros digitais — buscas no Google, engajamento em redes sociais, e agora as respostas de modelos de IA — como fonte de dados epidemiológicos sobre a demanda por informação.”

Segundo o professor, isso permite três coisas: mapear lacunas de conhecimento da população, identificar onde a desinformação se concentra e com que velocidade circula, e avaliar a qualidade e a confiabilidade do conteúdo disponível. O passo seguinte é aplicado: usar esse diagnóstico para desenhar estratégias de comunicação e de letramento em saúde que alcancem as pessoas onde elas de fato buscam informação — o que hoje raramente é o consultório.

Destaque e produção do grupo

Em levantamento preliminar nas bases internacionais, a produção do grupo em infodemiologia aplicada à saúde bucal é das mais consistentes que identificamos nos últimos dez anos, afirma o professor. “É um mapeamento que está sendo formalizado como um estudo bibliométrico, ainda a ser submetido para publicação.”

Segundo Thiago Cruvinel, o impacto acadêmico do grupo se manifesta em quatro frentes. “Na influência sobre o campo. Nossos desenhos metodológicos estão sendo replicados por grupos no Irã, no Japão, na Europa e na América Latina, em outras línguas e outras plataformas. Quando outros pesquisadores adotam o seu protocolo, é porque ele virou referência — e isso é mais significativo do que qualquer contagem de artigos. Publicamos também os princípios éticos para pesquisa em infodemiologia e infovigilância, o que significa participar da construção das regras do campo, não apenas produzir dentro dele. Depois, no posicionamento do grupo da FOB fora do nicho de pesquisa.”

O coordenador do grupo informa que artigos foram publicados em periódicos de informática médica e saúde digital, comunidades científicas onde uma faculdade de odontologia raramente aparece. Isso amplia a visibilidade internacional da unidade e da USP para além da odontologia clássica.

“Além disso, pela formação de mestrandos e doutorandos, que são cirurgiões-dentistas, aprendem modelagem de tópicos, regressão aplicada a dados de plataforma, análise qualitativa assistida por software, mineração de dados de busca. Saem com um perfil híbrido — clínico e analítico — que praticamente não existe na odontologia brasileira. Com isso, estão frequentemente sendo premiados nacional e internacionalmente em congressos da área”, ressalta o professor.

Sobre a relevância do trabalho do grupo em política pública, o professor afirma que “por um processo de internacionalização efetiva, com parcerias com pesquisadores estrangeiros e financiamento competitivo da Fapesp, acredito que nossa pesquisa está tendo relevância direta para política pública. Por exemplo, a fluoretação da água é política de Estado, e nós estamos documentando como o apoio público a ela está sendo corroído online. Uma universidade pública produzindo evidência sobre a sustentação social de uma política sanitária é exatamente o retorno que se espera do investimento em pesquisa. Uma de nossas pesquisas ajudou a formular políticas públicas de comunicação em saúde no Canadá, por exemplo.”

Fases do trabalho

Sobre os resultados obtidos com o trabalho do grupo, Thiago acrescenta que foram realizados em fases “são mais de dez anos de trabalho árduo. Começamos medindo a demanda por informação em saúde: o que as pessoas efetivamente procuram sobre dor de dente, cárie, cárie na primeira infância — usando dados de busca do Google como fonte epidemiológica. A pandemia nos deu um experimento natural: com o acesso ao consultório restrito, acompanhamos o que acontecia com a busca por informação sobre dor de dente. Em paralelo, avaliamos a qualidade do que estava disponível, e ouvimos os pais diretamente, em estudo qualitativo.”

Segundo o professor, a segunda fase foi caracterizar a desinformação. “Mapeamos websites e depois Instagram, Facebook e Twitter, em inglês e português. Os temas se repetem com uma constância impressionante: doença gengival, tratamento de canal, dor de dente, flúor e cárie — mais da metade de tudo. E há um achado que costuma surpreender: no nosso mapeamento, a maior parcela da desinformação foi produzida por profissionais da própria odontologia, com frequência de interesse financeiro maior do que a de qualquer outro grupo. Nos posts sobre ‘odontologia biológica’, 58% vinham de autores ligados à saúde, dois terços continham desinformação e mais da metade tinha motivação comercial. Isso reposiciona o problema: não é só educação do público, é ética profissional e regulação.”

Com relação a terceira fase o professor Thiago informa que foi para entender o mecanismo. “Descobrimos que a desinformação sobre flúor se apoia principalmente em falsa atribuição — e, em parte dos casos, em citação seletiva de artigos científicos reais, fora de contexto. Ou seja: usa-se a ciência como fachada. E fomos além da descrição: desenhamos um ensaio clínico randomizado para medir a reação psicofisiológica de internautas expostos a informação versus desinformação sobre flúor. Queremos saber o que essas mensagens produzem no corpo de quem lê, não só o que produzem no engajamento.”

“A quarta fase é a mais propositiva. Identificamos ‘vazios de informação’: temas com alta procura e baixa oferta confiável — higiene bucal, fio dental, uso de antibióticos, mamadeira, entre outros, em 21 países. É onde a desinformação se instala. E isso muda a estratégia: a resposta não é principalmente remover conteúdo falso, é ocupar o espaço vazio com conteúdo bom, na linguagem e no formato que as plataformas premiam”, enfatiza o professor.

Finalizando, Thiago Cruvinel informa que “agora estamos desenvolvendo pesquisas sobre o impacto da desinformação em saúde bucal, considerando cenários da inteligência artificial e de populações de centros urbanos. Para isso, estamos utilizando modelos computacionais bastante sofisticados para tentar entender o que poderia acontecer com a saúde da população caso a desinformação continue sendo propagada. Estamos em vias de fato de consolidar uma parceria de pesquisa com pesquisadores chineses. Torcendo para que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) considere a nossa pesquisa com mérito de financiamento suficiente para futuros estudos na Ásia.”

Ilustração: Gettyimages